Tivemos problemas com a versão anterior do site, que apresentou perda de imagens, desconfiguração dos textos e problemas de carregamento. Agora estamos ok, mas ainda estou acertando os posts mais antigos, corrigindo falhas e recolocando as imagens.
Em breve teremos matérias novas.
Hasta la pizza!

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KRIPTA – O HORROR EM PRETO E BRANCO


Por quase quarto décadas os quadrinhos de terror tiveram lugar de destaque nas bancas brasileiras, vivendo o seu apogeu nos anos 60/70 até desaparecerem quase por completo nos anos 80. O gênero horror aportou no mercado editorial brasileiro em meados dos anos 50 com a revista O Terror Negro (julho de 1950), que inicialmente trouxe as aventuras do herói Terror Negro (Nedor).

A partir do nº 09 passou de fato a publicar histórias de zumbis, monstros, vampiros e outros seres do além, sempre em histórias curtas, que em poucas páginas procuravam levar o medo e a apreensão ao leitor. Com o sucesso dessas revistas e a grande quantidade de títulos nacionais de diversas editoras, o fornecimento de material estrangeiro a ser publicado não foi suficiente para suprir a demanda de publicações nacionais, ainda agravada pela queda do gênero nos EUA. Com isso, muitas revistas passaram a publicar parte de suas histórias feitas por artistas nacionais e outras apostaram em publicações 100% nacionais.

Esse mercado seguia um modelo padrão de narrativa criada com sucesso pela E.C. Comics; histórias curtas, com bastante violência e desfecho com impactos como”.. e quando olhou para o seu filho, reconheceu em seus olhos o mesmo olhar de seu antigo sócio, assassinado por ele há mais de vinte anos..”. Esse modelo foi quebrado em 1964 pela Warren Publishing Company que, em plena época de censura aos quadrinhos norte-americanos, conseguiu inserir novamente os quadrinhos de terror no mercado editorial valendo-se de uma brecha nas nefastas regras do Comic Code.

A adoção do formato magazine (20.5 x 27.5cm) isentava a editora da obrigatoriedade do selo de aprovação do Comic Code, que visava às revistas em formato americano (17 x 26 cm), pois as em formato magazine eram em geral revistas adultas e não consumidas pelos inocentes leitores.

Composta por um excelente time de desenhistas e roteiristas, a Warren Publishing Company apresentou aos leitores uma nova forma de narrativa nas histórias de terror explorando o terror psicológico e nauseante onde a violência chocava o leitor sem provocar repulsa.

Apesar de adotar o formato de histórias curtas, muitas delas tinham continuação na edição seguinte formando arcos e até mesmo séries com determinados personagens. Inicialmente a Warren começou com os títulos Creepy e Eerie, logo depois vieram Vampirella e posteriormente 1984. Outro diferencial era a inclusão de histórias de suspense e ficção científica sempre com roteiros fortes e inesperados.

O material da Warren permaneceu inédito no Brasil até 1976 onde, até então, predominava a produção nacional e material oriundo de editoras como E.C. Comics, Charlton Comics e mesmo da Marvel Comics (Tales to Astonish, Journey Into Mistery). Quando em Setembro de 1976 a RGE – Rio Gráfica Editora (atual Editora Globo) levou às bancas a primeira edição de Kripta. Idealizada pelo editor Luis Felipe Aguiar, Kripta é até hoje considerada a melhor revista do gênero publicada no Brasil.

Com 68 páginas, capa colorida e miolo em p/b, a RGE investiu também em uma campanha publicitária incluindo rádio e TV, que eternizou a frase “Com Kripta, qualquer dia é sexta-feira, qualquer hora é meia-noite”. Inicialmente Kripta trazia histórias publicadas na Eerie e logo mesclou o seu conteúdo com material da Creepy.

Foram 60 edições publicadas entre setembro/1976 a junho/1981. Os desenhistas nacionais Walmir Amaral e José Evaldo ficaram com a incumbência de fazer as releituras das capas originais, todas pintadas, até a edição de nº 35, mas a partir da edição 36 foram utilizadas somente as capas originais.

Kripta sempre manteve o mesmo número de páginas, mas mudou o formato por duas vezes. Até a edição 26 adotou um formato intermediário entre o magazine e o formato americano (17 x 24 cm); entre os números 27 e 50 o formatinho (13,5 x 20,5 cm) e em seguida passou para o mini-formatinho (13,5 x 19 cm) até o seu encerramento.

Enquanto roteiristas como Doug Moench, Archie Goodwin, Al Milgrom, Don McGregor, Roger McKenzie, Bruce Jones, Roger Stern, Nicola Cuti, Bill Dubay, Budd Lewis, Steve Skeates, Dave Sims davam vazão aos seus sonhos e pesadelos, desenhistas como Rich Corben – que recentemente abandonara o pseudônimo de Caza – Berni Wrightson, José Ortiz, Howard Chaykin, Frank Miller, Neal Adams, Esteban Maroto, Walter Simonson, Steve Bissette, George Pérez, Martin Salvador, Val Mayerik, Alex Niño, Alfredo Alcala, Leopold Sanchez, Paul Neary, Tom Sutton, Paul Gulacy, Jim Starlin, Gonzalo Mayo, Luis Bermejo, Ramon Torrents, Vicente Alcazar, Wallace Wood, Al Williamson, Alex Toth, Jim Steranko, John Severin, Mike Plogg, Angelo Torres, Leo Durañona, Carmine Infantino, Steve Ditko, Jaime Brocal ilustravam com maestria os roteiros recebidos.

As séries mais marcantes publicadas no Brasil foram Os viajantes do horizonte, Gaffer, Hard John’s Nuclear, A Noite dos Dementes, Dr. Archeus, O invasor, Apocalipse, A Múmia, O veleiro esmeralda e a trilogia (“Os demônios de Jebediah Pan”, “Os demônios de Jebediah Cold” e “Os demônios de Nob Hill”). Alguns personagens ganharam o gosto dos leitores como Darklon o místico, Spectro, Hunter, Dax o guerreiro, Coffin e o inesquecível Pi (“Papai e o Pi” e “O Pi e eu”).

A ambientação das histórias era bem variada e não se limitava a um local ou época, explorando o medo pelo desconhecido através de histórias protagonizadas também por criaturas não-humanas. Os clássicos da literatura de horror tiveram o seu lugar garantido como os contos de Edgar Alan Poe (“A Máscara da Morte Rubra”, “Os Crimes da Rua Morgue”, “O Retrato Oval” e “O Barril de Amontilado”) , H.P. Lovecraft (“Ar Frio”) e Nathaniel Hawthotne (“O vale das três colinas”) que foram adaptados de forma única e marcante.

Kripta nº26 estreou a seção Cine Kripta com matérias sobre os filmes de terror e ficção em exibição nos cinemas, mas teve vida curta sendo encerrada no nº 32. Em uma época em que não existia a internet ou e-mail, a comunicação entre os leitores era feita através da seção de cartas que ocupava as primeiras páginas da revista. A seção de cartas não se resumia a elogios dos leitores, mas era palco de acaloradas discussões entre defensores e detratores da revista, como o “caso Wellington” com um debate se arrastou por meses.

E pela seção de cartas tivemos conhecimento de que a redação chegou a cogitar a inclusão de material nacional nas páginas de Kripta. Entretanto o que aconteceu foi a inserção de algumas páginas com cartuns de humor negro nos superalmanaques feitos por Nilson, Nani, Fernando, Guidacci e Cláudio Paiva.

Dos três almanaques publicados, um deles saiu em formato “grande” com uma história publicada em cores – a única em toda a série – e dois em formatinho, com o terceiro intitulado “Almanaque de Kripta erótica”. Já os dois superalmanaques publicados, foram “Humor negro” e “Terror da Infância”, com 132 páginas cada.

Em 1979 os leitores foram brindados com uma edição especial com 164 páginas, em formatinho, que não passou da primeira edição e que, no ano seguinte, mudou para “Kripta apresenta:”, em formato magazine e periodicidade anual; “Kripta apresenta: Vampirella”, uma coletânea das melhores aventuras da heroína publicadas pela Warren; “Kripta apresenta: Edgar Alan Poe” que reeditava todos os contos de Poe adaptados pela Warren publicados nas páginas de Kripta.

Houve também um almanaque com a reedição das melhores histórias publicadas em Kripta que trouxe uma história inédita “Terceira pessoa do singular” – escrita por Bruce Jones e desenhada por Luis Bermejo.
A RGE editou também a revista Shock, apelidada de revista-irmã, pois o seu conteúdo também provinha das edições americanas de Creepy e Eerie, mas foi cancelada no quinto número.

Kripta marcou época pela qualidade das histórias, além de influenciar o mercado editorial brasileiro e alavancar uma nova leva de títulos de horror. Com destaques para Spektro, Pesadelo e Histórias do Além (Vecchi), o selo Capitão Mistério (Bloch Editores) com 10 títulos de horror da Marvel Comics, Calafrio, Mestres do Terror (D-Art) e edições especiais como O grande livro do terror (Editora Argos).

Em junho de 1981 chega às bancas o último número de Kripta, trazendo como brinde o nº 0 da revista 3ª Geração anunciada como a nova “mutação” de Kripta, com o material licenciado pela Marvel Comics, além de entrevistas e seções sobre cinema e literatura fantástica. Apesar de ter retomado o formato antigo, a nova revista não emplacou e foi cancelada na 5ª edição.

A RGE ainda utilizou do nome Kripta para tentar emplacar três novas revistas sob o selo “Kripta apresenta”: Dr. Corvus, Fetiche e Pânico, todas em formatinho de péssimo tratamento gráfico, além do fraco material selecionado.

Em meados de 2002/2003 a editora Pandora Books cogitou a publicação do material da Warren Publishing Company em uma nova revista no estilo da Kripta. Entretanto na época a questão dos direitos autorais sobre o material autoral publicado pela Warren ainda estava pendente, o que acabou por impedir qualquer negociação pretendida pela Pandora.

Em 2003 um grupo de desenhistas e roteiristas novatos, fãs da Kripta, colocaram no ar o site http://www.ucmcomics.com.br que ao longo de três anos disponibilizaram online sua própria revista de terror nacional, e homenageavam a Kripta tanto no nome quanto no projeto gráfico. O site da ucm atualmente encontra-se desativado, mas pode ser acessado através do site http://web.archive.org.

O material da Warren retornou às bancas e às comic shops brasileiras em 2011 através da Mythos Editora, que está republicando a revista Eerie a partir do primeiro número, em encadernados contendo cinco edições cada.

Com essa nova edição novamente qualquer dia é sexta-feira e qualquer hora é meia-noite…

Consulta bibliográfica:

http://www.nostalgiadoterror.com/reportagens_1/kripta.htm
http://www.universohq.com/quadrinhos/2006/n18092006_06.cfm
http://hqmaniacs.uol.com.br/principal.asp?acao=materias&cod_materia=275
http://www.gibihouse.xpg.com.br/rge/warren/warren_rge.html

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ALMANAQUE DO HUMORDAZ


A história do Humordaz começou no jornal Estado de Minas, mais precisamente em uma pequena coluna assinada pelo Procópio, que aos poucos foi crescendo, quando então a convite vieram os cartunistas Lor e Nilson, além do Dirceu, que se intitulava como frasista.
Tomando cada vez mais espaço na página graças à crescente aceitação dos leitores, o time de colaboradores aumentou com a presença de Afo, Benjamin e Mário Vale, e o resultado foi uma página inteira com o melhor do humor produzido em Minas Gerais, publicada todos os sábados no segundo caderno, batizada como Humordaz.

Dentre os maiores sucessos do Humordaz, mais que os textos do Procópio e as frases do Dirceu, as charges tornaram-se o carro chefe da página. O número de colaboradores crescia cada vez mais: Aroeira, Dirceu, e Clacchi logo entram na equipe.
Dos chargistas, Afo, Lor e Aroeira brilhavam com suas charges envolvendo temas políticos e sociais, em plena era da ditadura militar. A equipe utilizava o mesmo artifício adotado pelo pessoal do Pasquim: Criavam charges “extras” propositalmente mais fortes para serem barradas pela censura, enquanto as outras passavam para a publicação, era a técnica do “boi de piranha”.

Mas uma página semanal era pouco, reunidos periodicamente dentro das galerias do Edifício Malleta, ponto de encontro da boêmia, artistas, jornalistas e intelectuais de Belo Horizonte. Sentados nas mesas do Lua Nova e da Cantina do Ângelo, entre uma cerveja e outra, elaboravam novas charges, discutiam política e principalmente: a criação de uma revista que agregasse todo o trabalho deles de maneira totalmente livre e independente.

Era uma época sem internet, e mesmo o telefone era pouco usado, portanto o que valia eram as cartas e as rodas de amigos reunidos periodicamente de modo quase religioso. Era uma maneira mais humana e calorosa de se ter contato com artistas novos e veteranos, e não raro aconteciam os apadrinhamentos: artistas já firmes no mercado que descobriam novos talentos e os ajudavam nos jornais e revistas para serem publicados, era algo feito com a maior boa vontade.

O nome da revista não poderia ser outro: Almanaque do Humordaz, afinal eles queriam o público leitor que os acompanhavam no Estado de Minas já a quase dez meses, e o nome era o gancho perfeito. Para montar a “Editora Humordaz Sociedade Civil Ltda.” e compor o quadro editorial precisavam de um jornalista para assinar o expediente, e conseguiram isso com Geraldo Magalhães. Nilson que já havia morado e trabalhado com o Henfil, conseguiu dele o editorial para o primeiro número, em um texto que fala sobre a realidade do cartunista/desenhista brasileiro que em busca de espaço para seu trabalho no Rio de Janeiro e em São Paulo (que na época eram os principais centros editoriais do país), encontra a realidade crua a ser enfrentada, principalmente pela concorrência do material estrangeiro distribuído pelos Syndicates por preços irrisórios, tornando impossível uma concorrência. Henfil aponta como solução, as publicações regionais, como o Almanaque do Humordaz.

A imagem que abre esta matéria era para ter sido utilizada como capa para a primeira edição, um trabalho primoroso do desenhista Benjamin, mas com o apoio de alguns colegas, Nilson vetou o uso do desenho para a capa por dois motivos:

1 – Era muito assustadora (para aquela época), e poderia não ser atrativa para os leitores.

2 – Apesar do Benjamin ter trabalhos publicados no Humordaz, a capa do Almanaque deveria trazer uma ilustração dele, do Afo ou do Lor por serem mais cartunescos.

Sendo assim a questão foi fechada: a capa seria do Afo e do Lor, e o desenho do Benjamin seria utilizado como capa do n° 2.

Mas de alguma forma a arte do Benjamim foi publicada na segunda capa da primeira edição sem ao menos uma legenda anunciando-a como capa da próxima edição.

Impressa em off-set, formato 22 x 16 cm, capa em duas cores e miolo em preto e branco, ficou pronta a edição.
O lançamento do Almanaque do Humordaz foi feito no Teatro Marília, com toda a pompa merecida. Somente naquela noite foram vendidos cerca de 400 exemplares, todos devidamente autografados pelos autores.

Uma das idéias do Almanaque era ter a cada edição, um desenhista mineiro já consagrado como convidado especial. O escolhido para a primeira edição foi o Nani, cartunista nascido em Esmeraldas, com ótimos trabalhos já publicados no “Pasquim”.

Pouco tempo depois, uma descoberta: cartuns inéditos do cartunista Carlos Estevão, encontrados por Carlos Felipe nos arquivos dos “Diários Associados”, estava decidida a capa da segunda edição e o convidado especial.

Eleito mineiro honorário, o pernambucano Carlos Estevão foi devidamente homenageado no Almanaque do Humordaz. Reproduzindo a última entrevista dada por Carlos Estevão, publicada originalmente no “Diário da Tarde” de 04/03/1972, praticamente quatro meses antes de seu falecimento.

Um aviso em forma de carimbo informava aos leitores que a publicação era voltada para maiores de 16 anos, a censura batia na porta. Agora o Almanaque do Humordaz era distribuído nacionalmente, mesmo demorando um mês ou dois, a revista chegou a diversos rincões do país.
O Almanaque do Humordaz fazia troça com a política e a sociedade da época, botando o dedo na ferida sem o menor constrangimento, o que levou a equipe a receber uma sinistra notícia: A partir daquele mês (julho/1976), o almanaque estava sujeito à censura prévia, antes de ser publicado, deveria ser enviado à Brasília pra ser avaliado pelo órgão censor, que determinaria o que poderia ser publicado ou não.

A terceira edição já se encontrava toda selecionada e em processo de diagramação, não querendo se submeter à censura prévia, que iria demandar despesas e atrasos, e a certeza de que o Almanaque não sobreviveria de forma digna após uma passagem por Brasília, ficou decidido o fim do Almanaque do Humordaz.

Acabava o Almanaque nas bancas, mas a página semanal no Estado de Minas continuou por cerca de um ano e meio, alegrando os leitores de toda a Minas Gerais. Assim ao lado de “Araruta” (Porto Alegre), “Casa de Tolerância” (Curitiba), “Uai!” (Belo Horizonte), “O Outro” (Recife), “Cabra Macho” (Natal), “Livrão de Quadrinhos”, “Balão” e “Habra Quadabra” (São Paulo), “Risco” (Brasília) e “O Bicho” Rio de Janeiro”, o Almanaque do Humordaz ajudou a compor o movimento alternativo do quadrinho nacional dos anos 70.

Referências bibliográficas:

http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/08/nilson-o-guerrilheiro-do-cartum.html
http://www.tribunadacidade.xpg.com.br/afo_cidade_nova.html
http://www.rio.rj.gov.br/arquivo/anexo/catalogo_imprensa_alternativa.pdf
http://hqmaniacs.uol.com.br/principal.asp?acao=materias&cod_materia=56
Almanaque do Humordaz #01 (junho/1976)
Almanaque do Humordaz #02 (julho/1976)

Agradecimento especial ao cartunista Nilson, pelas horas de bate-papo e informações únicas.

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O BICHO


“Este é o bicho que avisamos que vai pegar:
Gordo de 32 páginas.
Grampeado no lombo.
De cor variável por fora
E preto e branco por dentro.

Enfim, um bicho de papel.

Mas de espécie nunca vista, inteiramente inédita por estas bandas: uma revista de HQB. Histórias em Quadrinhos Brasileiras.
Para adultos, de jovens para cima.
Quadrinhos cômicos e sérios, cartuns, desenhos de humor e desenhos.
Os melhores daqui e de agora, daqui e de fora, nunca esquecendo os daqui de ontem.

O Bicho é isso aí, ou é isso aí, bicho. Nenhum bicho específico, mas no sentido geral.
Bicho de criação, bicho carpinteiro, bicho de sete cabeças. De fato, O Bicho já estava por aí, no ar, no solo e subsolo, desmontado mas novo em folha, faltando só juntar as partes, para se apresentar inteiro e poder conquistar, pela qualidade, o título de Bicho de estimação.”

Com esse texto de apresentação, o cartunista Fortuna dava as boas vindas ao leitor na primeira edição de O Bicho. Em meados de março de 1975, dois meses após a distribuição gratuita do n° zero, chegava às bancas a primeira edição de O Bicho.
Conta a lenda que, na época em que Fortuna se preparava para lançar sua revista, Luiz Gê foi conversar com ele e ficou muito satisfeito em saber que o veterano cartunista estava se baseando na experiência da Balão como orientação do seu projeto. Luiz Gê teria dito: “Gostei de ouvir isto! O que me assegura que entramos para a história”.

Lançado pela editora Codecri (Comitê de Defesa do Crioléu), e editado por Fortuna, com uma tiragem de 15 mil exemplares, O Bicho chegou às bancas trazendo a nata dos cartunistas da época, além de resgatar trabalhos antigos de cartunistas e desenhistas brasileiros. Havia espaço também para o material estrangeiro, devidamente selecionado, privilegiando artistas pouco conhecidos por aqui.
A importância desta revista encontra-se no fato de que, trazendo aos quadrinhos a questão do experimentalismo da linguagem – ela veiculava histórias produzidas no intuito de bater de frente com as antigas concepções estéticas baseadas nas HQs enlatadas que eram trazidas ao país até então, além da crítica ao moralismo presente em nossos costumes.

DISSECANDO “O BICHO”

Contando com Luiz Gê e Miguel Paiva como colaboradores internacionais, a equipe principal de colaboradores da revista, já tinha passagem pelas páginas dos jornais Pasquim e Pingente, respectivamente: Nani, Coentro, Guidacci, Fortuna, Mollica e Duayer. Laerte, Dirceu Amádio, Paulo Caruso e Crau também marcaram presença, sendo que alguns deles já colaboravam com a revista Balão.
Aos poucos o time aumentou: Mariza, Michele, Luscar, Lapi, Chico Caruso, Miguel Paiva, Redi, Geandré, Luiz Fernando Veríssimo, Nilson, Canini, Parrot e Fausto.
A revista trazia sob o título o lema: “Cartuns e Quadrinhos não enlatados”, o que dava lugar a artistas como Quino, Roger Brand, Crumb, Wolinsky e Mary Kay Brown, entre outros, lugar garantido em suas páginas.

O Bicho teve vida curta, apenas oito edições, sendo seis editadas pela Codecri e as duas últimas pela EMEBE Editora Ltda. A cada edição trazia uma matéria especial sobre quadrinhos antigos, resgatando a memória de artistas como Seth, Luiz Sá, Carlos Estevão. Mas foi na segunda edição, que O Bicho publicou com exclusividade, todos os detalhes da batalha do Henfil para publicação do Fradim nos Estados Unidos. Mostrando o modelo do contrato padrão da UPS, com as devidas alterações feitas pelo Henfil, curiosamente anos depois Bill Waterson (Criador de Calvin & Haroldo), se valeu de praticamente as mesmas exigências em seu contrato com a UPS. Essa matéria nunca foi totalmente reproduzida em nenhuma outra publicação, tornando-a leitura obrigatória a todos os leitores.

Na terceira edição, Fortuna foi até o Sanatório Azevedo Lima entrevistar o desenhista Luíz Sá, que se encontrava internado para tratamento de tuberculose. Nessa entrevista, Luiz Sá fala de toda a sua carreira, inclusive sobre os seus desenhos animados. Através desta entrevista, um colecionador identificou ter em seu acervo parte das películas originais de um de seus desenhos animados, e dois meses depois, O Bicho reproduziu em suas páginas, as imagens dessas películas.

Na quarta edição, foi resgatada uma série de tiras produzidas em 1948, desenhadas por Carlos Estevão e escritas por Millôr Fernandes ( que na época assinava como Vão Gôgo). Publicadas no Diário da Noite: “Ignorabus, o Contador de Histórias” era totalmente diferente das tiras convencionais da época, brincando com os recursos da metalinguagem e do non-sense, a tira terminava propositalmente em um loop de flashbacks.

A sexta edição de O Bicho, que foi a última editada pela Codecri, publicou uma hq de ficção científica chamada: “A Terra”, escrita por Dirceu Amádio e ilustrada por Leo (Luiz Eduardo de Oliveira). Dirceu Amádio que já era colaborador da Balão, anos depois veio se tornar empresário do setor metalúrgico, e foi reconhecido em 2001 como um dos empresários que mais investiu no setor cultural. Enquanto isso Leo, passou a viver na frança, onde se consagrou como desenhista, admirado mundialmente pelos álbuns da série Aldebaran (publicados no Brasil pela Panini – maio/2006). Leo em entrevista publicada na revista Wizmania # 42 (panini – março/2007), declarou não ter sido pago pelos editores, pela história publicada em O Bicho.

A oitava e última edição de O Bicho, trazia a quadrinização da música “Chiquinho Azevedo” (Gilberto Gil – 1976), com o roteiro elaborado por Fortuna e ilustrada por Crau. Reproduzia também uma nota do JB, que comemorava o acordo entre Maurício de Souza e a Warner, para a publicação das tiras do Pelezinho (outubro/1976), e que em menos de um ano ganhou revista própria na Editora Abril (agosto/1977).

E foi assim que em novembro de 1976, O Bicho apareceu pela última vez nas bancas, apesar de poucos números lançados, tornou-se ao lado da Balão, um dos marcos editoriais que abriu caminho para novos artistas e formulações temáticas e críticas com total liberdade aos autores. Somente dez anos depois tivemos uma nova publicação nestes moldes: Circo (outubro/novembro – 1986), mas isso é assunto para outra matéria.

Consulta bibliográfica:
http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_ic/Enc_Artistas/artistas_imp.cfm?cd_verbete=3855&imp=N&cd_idioma=28555
http://hqmaniacs.uol.com.br/principal.asp?acao=materias&cod_materia=562
http://midia-radical.blogspot.com/2008/08/imprensa-alternativa.html
http://blogln.ning.com/profiles/blogs/o-pasquim-quarenta-lances
http://br.groups.yahoo.com/group/EuroQuadrinhos/message/1626
http://lambiek.net/artists/l/leo.htm
http://jornalivros.co.cc/?p=235
http://www.guiadosquadrinhos.com/thumb.aspx?cod_tit=bi212100&esp=&total=9
Agradecimento especial ao Fábio Dark pelo scan das entrevistas.

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