NASCE O SUPER-HOMEM


Este ano a criação máxima de Jerry Siegel e Joe Shuster: o Super-Homem, completa 70 anos. Muito se fala sobre a sua trajetória através de todos esses anos, as brigas na justiça pelos direitos autorais, as eternas reformulações do personagem, os desenhos, seriados para tv e cinema, e os filmes de longa metragem.

Mas como isso tudo começou? Qual foi a fonte de inspiração de Jerry Siegel e Joe Shuster? Como tudo começou? Para responder a essas perguntas voltemos no tempo:

O pai de Jerry, Mitchell Siegel morreu assassinado com dois tiros dentro de sua loja, vítima de um assalto. Um crime que nunca foi resolvido, em conseqüência disso o padrão econômico dos Siegel fora fortemente abalado, recebendo ajuda de familiares, Sarah Siegel manteve como pôde sua família. Jerry Siegel era seu eterno bebê, passava a maior parte do tempo em casa na companhia da mãe sonhando com homens que declaravam guerra ao crime e estavam acima de qualquer necessidade e acima da dor.

Ainda adolescente com desempenho fraco nos estudos, começou a participar do jornal semanal de sua escola The Torch, alimentando o sonho de um dia se tornar repórter. Lois Amster que fazia parte da equipe editorial foi vencedora do título da “mais popular”, ganhando entre os colegas de redação o apelido de “Petite Lois”.

Os desenhos de Joe Shuster impressionaram o editor do jornal de sua escola, que nada mais era do que Jerry Fine, primo de Jerry Siegel. Ao dizer que iria se mudar para a Glenville High School, Fine o recomendou que procurasse Jerry, pois tinha certeza de ambos iriam se dar bem, e assim se deu início ao contato e futura parceria com Jerry Siegel.

Em meados dos anos 20 o fisiculturismo entrava em voga, Bernad MacFadden editor da revista Physical Culture, promoveu em 1922 o fisiculturista Angelo Siciliano ou Charles Atlas, como “o homem do corpo mais perfeito do mundo”. Atlas foi ídolo de Joe Shuster que desejava desenvolver seu raquítico corpo, apesar das zombarias de Jerry, que era avesso a qualquer atividade física.

Charles Atlas influenciou visualmente personagens como Tarzan, que aparecia nas capas dos pulps trajando uma pele de animal no mesmo estilo que Charles em suas apresentações em público.

Quando Buck Rogers estreou sua tira diária nos jornais, Siegel detectou o plágio da história sobre o romance Armageddom 2499 AD – Philip Nowlan, publicado nas páginas de Amazing Stories, enquanto Shuster por sua vez vislumbrou o mercado como desenhista, já que o desenhista do título era um garoto pouco mais velho do que ele.

No ano de 1929, Jack Williamson, correspondente de Jerry Siegel, escreveu o romance The Girl From Mars, onde um alienígena vivendo em nosso planeta era dotado de poderes superiores aos de um homem normal.

Em 1931 o primeiro número da revista do Sombra, esgotava-se nas bancas, abrindo caminho para outros heróis sombrios na luta contra o crime, Agente Secreto X-9 e Dick Tracy antagonizavam com o pueril estilo de Zorro e Pimpinela Escarlate, fomentando as fantasias de Jerry, mesclando com o seu gosto pela ficção científica, a luta contra o crime.
Com o sucesso dos desenhos de Harold Foster na primeira versão em quadrinhos de Tarzan. Foster deu vida ao corpo másculo, dotando-o de dinamismo, beleza e agilidade, tornando-se um ícone de admiração de leitores masculinos e femininos. Siegel e Shuster, vendo isso (afinal eles também eram admiradores do trabalho de Foster), começaram a traçar planos para um trabalho próprio no mundo das tiras de quadrinhos.

Às vésperas de completar 18 anos, Siegel anunciou nas páginas do The Torch o lançamento de sua própria revista: Science Fiction: The Advance Guard of Future Civilization. O anúncio prometia em suas páginas escritores conhecidos e um grande investimento em propaganda, mas o preço era ousado: 0,15 cents, 50% a mais do preço cobrado pelo renomado fanzine: The Time Traveller, que possuía uma qualidade gráfica surpreendente. Mas na verdade, o grande time de escritores anunciado por Siegel era composto quase por completo por apenas ele e Shuster, que se revezavam em diversos pseudônimos para produzir a revista.

Foi produzindo a coluna de resenha de livros, que Siegel conheceu um livro que deu um rumo novo a suas idéias: Gladiator, de Philip Wylie.

Gladiador era um mito sobre o homem superior e a sociedade medíocre que destruía tudo aquilo que poderia vir a beneficiá-la, em troca de um conforto imediatista e conformista. Em sua trama, um biólogo, utilizando os recursos da eugenia transforma o próprio filho: Hugo Danner, no protótipo do homem perfeito: invencível, de força e vitalidade além do comum, e dotado de uma superioridade moral inata. Ao atingir a idade adulta, decide ir de encontro à civilização para ajudar o mundo e os seus semelhantes, mas ele encontra uma humanidade mesquinha, onde marginais o desafiam em lutas constantemente, é pressionado pelo exército a participar de uma guerra desleal e mercenária, as mulheres se atiram aos seus pés em gestos fúteis e interesseiros, é explorado por um agenciador de lutas de boxe, até aprender como lidar com o mundo e com as pessoas, mesmo que maioria delas não compartilhe de seus ideais íntegros e pacíficos.

Gladiador foi o catalisador que Siegel precisava, como apontam os seguintes trechos do livro: “Faço algumas coisas que me assustam, pai. Consigo saltar mais alto que uma casa, consigo correr mais rápido que um trem”. Ou quando Hugo em meio ao campo de batalha, descobre que as balas não ferem a sua pele, e tiros de maior calibre como os de um canhão, não fazem mais do que apenas derrubá-lo momentaneamente. Mais tarde, a fim de se acostumar com seus superpoderes, Hugo constrói uma fortaleza solitária em meio à floresta.

Tudo isso aliado a certas características dos personagens: Tarzan e John Carter de Marte, ambos criados por Edgar Rice Burroughs. Eram os mais fortes e nobres exemplos de como o ser humano deveria ser, dotados de uma superioridade inata que lhes dava comando de qualquer mundo ou ambiente que adentrassem.

Com a mente fervilhando e com os desenhos de Joe Shuster, Jerry Siegel escreveu: The Reign of the Superman, uma novela futurista em nove páginas datilografadas.

Em breve sinopse podemos narrar o texto de Siegel: Numa reflexão às conseqüências da grande depressão de 1929, que inundou as ruas dos EUA de desempregados e famintos, que surge o primeiro cenário do romance. Onde o professor Smalley observa os
moribundos na fila de sopa, e escolhe um deles (Dunn) ao acaso para ser cobaia em um experimento. Injetando no corpo do andarilho uma substância encontrada em um meteoro, este adquire um poder mental surpreendente, capaz de ouvir os pensamentos das pessoas a sua volta, Dunn acaba fugindo semi-enlouquecido com o choque de seu novo poder.

Sua mente começa a clarear gerando uma sede de conhecimento, os livros da biblioteca nacional não suprem sua necessidade, levando-o a uma fúria irracional cada vez mais crescente. O professor Smalley observa aturdido o crescimento de fúria e poder de Dunn, em breve nada poderá detê-lo, e para que ele não domine o mundo, terá de ser morto, mas Dunn o mata primeiro, não antes de Smalley enviar uma carta-testamento ao principal jornal da cidade.

Com pleno domínio do poder de controlar a mente das pessoas, Dunn inicia seu plano de domínio mundial ao incitar ódio entre os membros do Conselho Conciliatório Internacional, para que cada país lance seu exército contra o outro até a total aniquilação do poder bélico mundial.

O repórter Forrest Ackermann tenta enfrentar esse super-homem, porém sem sucesso, e na eminência de sua morte faz uma prece silenciosa pedindo o fim para tal tormento.

E então quase que por milagre a face de Dunn começa a mudar: o soro estava perdendo o efeito. Para num arrependimento tardio se lamentar por entrar para a história como uma maldição e não como uma benção.

Jerry Siegel não era religioso, o conceito da intervenção divina veio também por inspiração de Wylie.

Semanas depois de sua publicação, os olhos de Siegel se arregalaram ao ler uma propaganda estampada nas últimas páginas de The Shadow: SUPER-HOMEM, logo abaixo, a figura de um homem musculoso lutando contra um atirador, seguido pela legenda: Doc Savage – mestre da mente e do corpo.

Doc Savage também se inspirara em Gladiator. A criação de Lester Dent era o protótipo do homem perfeito: corpo musculoso de pele cor de bronze, cultivados artificialmente em um laboratório, Savage falava qualquer língua deste planeta, sabia manejar qualquer arma e pilotar qualquer máquina, possuía conhecimentos avançados em física, química, biologia e mecânica, tinha uma resistência física excepcional, e graças a uma dieta especial seu corpo envelhecia lentamente, e periodicamente ele se isolava na Fortaleza da Solidão, sua base secreta localizada no Ártico, de onde planejava sua próxima empreitada, seguia os mesmos passos de seu pai, falecido em circunstâncias misteriosas.

Para Siegel o conceito de um super-homem, que anteriormente era um mero clichê sobre força e poder, ganhara agora o foco de ser um herói.

A catarse final se deu em março de 1933 com a revista Detective Dan, editada pela Humor Publishing, que era uma cópia mal feita de Dick Tracy, porém tinha um diferencial: Aquilo era o trabalho autoral de um jovem desenhista como Shuster e Siegel. A má qualidade da publicação decretou sua morte prematura, mas Siegel com um exemplar nas mãos procurou Shuster, pois aquele material não era melhor do que o que eles haviam fazendo, “Nós podemos fazer isso!” disse Siegel.

Em sua mente, o quebra-cabeça se montara: iriam escrever e desenhar uma tira de ação com um herói criado por eles mesmos, e vendê-la a Humor Publishing, mas não seriam quadrinhos policiais, seria algo grandioso, maior que Tarzan e Buck Rogens, mais fantástico que Gladiator e Doc Savage, seria sobre um super-humano com boa índole, seu nome? O Super-Homem.

Em 1933 a primeira versão do super-homem como personagem de quadrinhos foi enviada para a Humor Publishing, que após meses de silêncio, devolveram os originais rejeitando a proposta de Siegel e Shuster. Dessa primeira versão restou apenas hoje à capa esboçada por Shuster, essa capa foi encontrada décadas mais tarde na escrivaninha de Charles Gaines. Jerry tentara a sorte com Gaines enviando seu trabalho para a revista Famous Funnies em 1934, porém o resultado fora o mesmo: rejeitado.

Em junho de 1934 Siegel e Shuster se formam no Glenville High School, às vésperas de completarem ambos 20 anos de idade, trabalhos não remunerados como o jornal The Torch ficaram para trás, era hora de pegar no batente e ganhar dinheiro.

Deixando de lado temporariamente as idéias inovadoras do Super-Homem, Siegel e Shuster partiram para uma linha mais comercial, produziram uma adaptação livre de P. G. Wodehouse chamada Reggie Van Twerp, além de desenvolverem uma tira inspirada em O Gordo e o Magro.

Fecharam negócio com o editor do Cleveland Shopping News, um jornal de anúncios, para produzir um tablóide de quadrinhos chamado Popular Comics.
Porém o Shopping News voltou atrás cancelando o Popular Comics antes mesmo do primeiro exemplar ser impresso.

Neste período silenciosamente Jerry Siegel tentou afastar Joe Shuster do Super-Homem por acreditar que com Shuster, seu trabalho não teria futuro.
Primeiramente Siegel contatou Tony Strobl, aluno da Cleveland Art Institute, mas estepreferiu não arriscar com o projeto de Siegel, e após se formar, se tornou um dos melhores artistas dos estúdios de Walt Disney.
Mel Graff foi o seguinte, entusiasmou-se com a idéia de Siegel, e como já trabalhava para a NEA, o sydicate que cuidava das tiras de Wash Tubbs e Alley Oop (Brucutu), parecia ser o parceiro ideal. Porém no final de 1934, Graff partia em mudança para New York para lançar uma tira infantil chamada Patsy, para a Associated Press. Porém em 1935, Graff criou um amigo para Patsy, o Mágico Fantasma, um herói de capa e malha justa no corpo, que usava mágicas para resolver os problemas. Teria Graff se inspirado nas conversas com Siegel o conceito da capa e malha colante ou vice-versa? Essa pergunta permanece até hoje sem resposta.

A cartada seguinte foi Russel Keaton, o jovem desenhista anônimo das pranchas dominicais de Buck Rogers, seu estilo não era diferente do de Shuster, mas Keaton era diplomado pela Chicago Academy of Fine Art, além de já ser um profissional respeitado no mercado, o que poderia abrir as portas para publicar um trabalho próprio em um dos principais syndicates do país. Após meses trocando idéias, Keaton desiste por não querer se arriscar com alguém tão jovem e inexperiente como Siegel. Então no início de 1935, sem outras opções Siegel mantêm sua parceria com Shuster.

Os ventos da mudança vieram com a chegada da New Fun, editada pelo major Malcolm Wheeler Nicholson, e Siegel rapidamente fez contato com ele, o que resultou em duas encomendas: Henri Duval of France – Famed Soldier of Fortune e Dr. Occult – the Ghost Detective, tudo isso pelo módico valor de U$ 6,00.

Novas encomendas vieram, mas o valor pago era mísero, e Shuster trabalhava como entregador em uma mercearia, enquanto Siegel era entregador em uma gráfica. Durante a noite escreviam e desenhavam, e numa leva de sugestões enviadas ao major estava à tira do Super-Homem.

A resposta do Major foi: A tira do Super-Homem está aguardando um pedido iminente de um syndicate nacional… Uma encomenda para um tablóide com 16 páginas, em quatro cores, que poderia incluir o Super-Homem lá pelo início do ano.. “Acho que o Super-Homem tem ótimas chances”.

Animados com a notícia, Siegel e Shuster começaram a esboçar slogans para promover o Super-Homem, como “a tira de maior sucesso de 1936”, “sem dúvida a tira que conquistaria a nação! A Supertira! A melhor de todos os tempos! O maior acontecimento desde o surgimento das histórias em quadrinhos! A melhor tira de super-herói de todos os tempos!” E prometiam também “Velocidade, ação, risadas, emoções, surpresas. A mais inusitada de todas as tiras de humor e aventura jamais criadas! Uma nova personalidade saúda o mundo! Você vai rir! Você vai se admirar! É preciso ver para crer!”.
Entre todos esses slogans foram rabiscados em uma folha usada de papel, eles anteveram os produtos licenciados: caixas de cereais e biscoitos no formato do Super-Homem.
Siegel sabia que o grosso do dinheiro faturado pelos sydicates provinha da concessão de licenças.
Este esboço mostra pela primeira vez o Super-Homem de uniforme colante e capa, no peito um triângulo invertido, sem o famoso “S”.

Em 1934 Pimpinela Escarlate (um dos romances favoritos de Jerry Siegel) foi levado às telas de cinema, o drama da dupla identidade e a aparente ingenuidade do herói perante à mocinha, se tornaram modelo para Clark Kent e Lois Lane.

No final de 1935 o otimismo de Siegel e Shuster começara a baixar novamente, a negociação do major com o syndicate (seja ele qual tenha sido), nunca saiu, e para piorar nem mesmo a publicação da New Fun não havia saído.

Salvo pela Independent News de Harry Donefeld, o major conseguira levar as bancas as revistas New Fun e sete meses depois a New Adventure, mais isso tudo por que Jack Liebowitz entrara controlando a parte financeira.

Com o Super-Homem engavetado mais uma vez, Siegel e Shuster se concentraram nas revistas que estavam sendo publicadas.
Nesse período criaram: Calling All Cars, aventuras protagonizadas por policiais e Federal Men.
Federal Men teve boa aceitação, com a ampliação do tamanho das histórias para quatro páginas, Siegel e Shuster puderam extrapolar um pouco colocando os agentes federais em confronto com robôs gigantes, ou mesmo em cenários apocalípticos dignos das revistas Amazing Stories e Wonder Tales.
Mudaram também o visual do Dr. Occult, que abandonara o terno em troca de uma malha colante, botas, capa vermelha e uma espada. Shuster adorava o efeito dramático de uma capa esvoaçante.

Nessa época Charlie Gaines era um dos maiores fornecedores de quadrinhos para George Delacorte, além de ser um representante freelance do McClure Syndicate.
Portanto Gaines acabou recebendo a proposta de publicação do Super-Homem, a qual ele tentou emplacar em 1937 na revista Popular Comics, e em seguida na Tip Top Comics, porém sem sucesso. A Tip Top Comics pertencia à United Features Syndicate, e o motivo da recusa foi por acharem o trabalho de Siegel e Shuster um tanto imaturo, a Enquire Features recomendou “Prestem um pouco mais de atenção ao desenho”.

Possivelmente nessa época Siegel e Shuster tenham redefinido alguns aspectos do Super-Homem adequando-o para o mercado vigente.
Alguns dos pulps publicados por Donefeld voltados ao público adulto, incluíam alguns quadrinhos. Como Shuster gostava de desenhar garotas sensuais e Siegel tinha um texto que às vezes era apelativo, tentaram levar o Super-Homem para Worth Carnahan que editava entre outras os pulps Pep e Spicy Detective. Carnahan não viu futuro algum no material apresentado pelos rapazes, Super-Homem voltava para a gaveta de espera. Pois o trabalho pago era prioridade na vida de Siegel e Shuster.

No início de 1937 o major preparava mais um título: Detective Comics, colocando Vin Sullivan, seu mais leal editor para cuidar da publicação.
O conceito inicial para a Detective Comics era igual à estrutura dos pulps: histórias completas de um só gênero. As histórias principais teriam 13 páginas cada.
Siegel e Shuster foram convocados para criar algo novo, o resultado foi Slam Bradley, uma mistura de Captain Easy (Capitão César) de Roy Crane e Terry and the Pirates (Terry e os Piratas) de Milton Cannif.
A arte de Shuster se tornara mais esquemática, porém ousada, os textos de Siegel feriam o bom gosto com estereótipos revoltantes.

Criaram também a série Spy com quatro páginas por aventura. No saldo final, das 64 páginas de Detective Comics, 17 eram produzidas por eles, e não demorou muito para ocuparem 30 páginas mensais com suas criações.
Esse ritmo desgastou um pouco a qualidade do trabalho de Siegel e Shuster, pois praticamente tinham de produzir uma página completa por dia: eles eram roteirista, desenhista, letrista e colorista.

Endividado com Harry Donefeld, o major precisava de mais um título de sucesso, sua última tentativa meses atrás tinha sido a Thrilling Comics que não pôde ser publicada por falta de funcionários para cuidar da mesma.
Então em novembro de 1937 o major e Vin Sullivan começaram a juntar o que restara de Thrillig Comics em uma nova revista: Action Comics.

Não havia tempo para encomendar material novo, pois a revista tinha de estar nas bancas na primavera para que pudesse ser promovida com força total. Começaram então a revirar as pilhas de material rejeitado.
Conseguiram material para preencher parte da revista, mas nenhum deles tinha um personagem carismático o suficiente para ilustrar a capa.
Consultaram o cartunista Shelly Mayer que trabalhava para Gaines, se ele sabia de algum material de qualidade que tivesse escapado aos olhos de Gaines.

Shelly encontrou uma amostra do Super-Homem no meio da pilha de trabalhos rejeitados, a versão que Shelly viu era bem violenta: Após salvar um homem de ser linchado, este conta que sua esposa irá àquela noite para a cadeira elétrica sob falsa acusação. O Super-Homem vai atrás da verdadeira assassina: uma loira oxigenada, cantora de cabaré. Recebido a tiros pela assassina, ele arranca o revólver de suas mãos, o esmaga e agarra fortemente o braço da mulher dizendo: “Está pronta para assinar a sua confissão? Ou quer experimentar o que sentiu aquela arma quando eu fechei minha mão?”. A mulher escreve a confissão, é amarrada e amordaçada, sendo levada pelo Super-Homem até a mansão do governador. O mordomo da casa ataca-o com uma faca, mas a lâmina entorta. Derrubando a pesada porta de aço do quarto do governador, o Super-Homem exige que o governador o escute, e por fim conceda o perdão à mulher inocente. No dia seguinte o governador confessa entre seus assessores sobre a terrível visita que recebera a noite: “Ele não é humano!”.

Então Shelly sabia o que sugerir para Vin Sullivan.
Vin ficou empolgado com o material, afinal dois anos tinham se passado desde que ele teria recebido a proposta sobre o Super-Homem, e o momento atual pedia heróis como esse, mas precisava de alguns retoques para se tornar algo mais do que fantástico.
Em novembro, Siegel e Shuster receberam uma carta de Vin Sullivan, informando de que as amostras do Super-Homem estavam a caminho, e que eles a remontassem numa história de 13 páginas, pois ele compraria o material.
Quando a amostra chegou a dupla se trancou no apartamento de Shuster para dar cabo da encomenda, e chamaram o irmão de Shuster, para ajudar no trabalho.

Produziram uma página de introdução contando brevemente a origem do Super-Homem, eliminaram a parte do linchamento e da cantora, foram direto a parte da chegada à mansão do governador com o Super-Homem carregando uma mulher nos braços, sem maiores explicações. Após salvar a mulher da execução, o Super-Homem ainda enfrenta um marido que espancava a esposa, salva Lois Lane de um bando de gangsters, sai atrás de um traficante de armas, terminando na página 13 com um final em aberto para deixar os leitores em suspense, sem contar que também se disfarçara como Clark Kent e fora humilhado na frente de Lois Lane.

No último quadrinho, o Super-Homem corre por um cabo de alta tensão carregando um bandido apavorado dizendo: “Não se preocupe, os passarinhos ficam nos cabos e não são eletrocutados, desde que não toquem num poste! Opa! Quase bati naquele ali!”.
Aquilo era algo novo: um super-herói fazendo uma piada, algo totalmente inconcebível para Doc Savage, Tarzan, Flash Gordon, Fantasma, O Sombra, etc..
Aquilo era um grande diferencial para a juventude.

Pelo trabalho, Jerry Siegel e Joe Shuster receberam um cheque de 130 dólares, e assinaram um documento cedendo todos os direitos sobre o Super-Homem para a editora, pois era assim que as coisas funcionavam, e eles já haviam feito isso antes com todos os outros trabalhos anteriores.

Shuster declarou que abriria mão dos outros trabalhos para se dedicar exclusivamente ao Super-Homem, que no final das contas era bem mais divertido de se trabalhar do que Federal Men ou Radio Squad.
O major Malcolm não se saiu bem na história, no início de 1938 após voltar de uma viagem a passeio por Cuba, descobriu que fora “despejado” do escritório por Donefeld em virtude a falta de pagamentos, e tinha sua empresa levada ao tribunal de falências.
Em um acordo judicial a Independet News se tornara dona de todos os ativos do major, que em troca recebera apenas uma percentagem sobre o título More Fun Comics. Desistindo do mundo dos comics, o major passou a se dedicar como escritor de histórias de guerra e críticas às forças armadas americanas.
Vin Sullivan continuou como editor, Jack Liebowitz prosseguiu como contador.
Nenhum deles tinha como prever como o mundo dos quadrinhos iria mudar após a publicação do primeiro número de Action Comics.
E assim nasceu o Super-Homem.

Consulta bibliográfica:
- Homens do Amanhã – Gerard Jones – Conrad Editora
http://www.dialbforblog.com

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A SEDUÇÃO DOS INOCENTES

Através de um link publicado no universo hq que pude ter acesso aos scans originais em inglês da versão condensada do livro A Sedução dos Inocentes, publicada originalmente em um exemplar da revista Reader´s Digest (Seleções de Reader´s Digest ou simplesmente Seleções) de 1954.

Pedi a duas profissionais simpatizantes a livre informação que traduzissem a matéria, visto que em minha busca na coleção de Seleções de minha mãe, não localizei a edição brasileira correspondente à americana, mas encontrei um outro artigo publicado praticamente um ano depois dando um saldo ao “mal levantado”.

No segundo artigo é citado que um certo editor em julgamento justifica artisticamente a imagem de uma cabeça degolada na capa da revista “Crime Suspenstories” #22, desenhada por Johny Craig.

Esse episódio é de todo verídico, e o protagonista dele, nada mais é do que Bill Gaines, editor da E.C. Comics.

Boa leitura!

Em 1955 nossos pais e avós foram alertados também com esse sensacionalista artigo:

Fontes consultadas:
http://thehorrorsofitall.blogspot.com
Seleções Reader´s Digest #157 – fevereiro 1955

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QUEM LÊ QUADRINHOS, CONSOME!

Enquanto os comerciais de tv e rádio são limitados por um número fixo de exibições, os folders vem e vão pelas ruas e malas diretas, os banners na internet ainda tem um alcance limitado, os anúncios em revistas fazem parte do tipo de propaganda mais duradoura que existe.

O anúncio em mídia impressa (magazines, informativos, hq´s, etc..) têm, portanto, uma vida longa. Dificilmente uma revista será lida por apenas uma pessoa. Ela atravessa os meses e até mesmo os anos, seja em salas de espera em consultórios, prateleiras de sebos ou em coleções particulares. Isso tudo sem falar na relação custo/benefício que se comparada com as outras mídias, a mídia impressa normalmente têm um preço mais atraente e um alcance maior.

Mas quem anuncia e por que o anunciante é importante?
Os quadrinhos em sua grande maioria atingem os públicos infanto-juvenil e adulto, sendo o infanto-juvenil representante da maior fatia consumidora do mercado (roupas, bebidas, alimentos, brinquedos, eletrônicos, etc..).

Hoje em dia, uma das maiores revistas semanais de informação, com diversos jornalistas e colaboradores em suas páginas, tem todo o seu custo coberto pelos anunciantes.
Assim temos um veículo poderoso que atinge diretamente o público-alvo que mais consome, sem esquecer a cobertura do território nacional, e em alguns casos, a revista chega até Portugal.

A pergunta que não quer calar é: por que não temos anunciantes nas hq´s hoje em dia?
Tal presença acarretaria um aumento de tiragem, redução do preço de capa, o que por conseguinte tornaria a publicação mais atraente e acessível. No entanto…

Mas essa situação sempre existiu? Já tivemos anunciantes em potencial nas hq´s? Que tipo de produtos já foram anunciados? Na matéria de hoje o HQ Memória faz um apanhado dos principais anúncios/anunciantes que investiram no público leitor de quadrinhos a partir da década de 60.

Com vocês o nosso patrocinador:

Cursos de Detetive

Geralmente patrocinados pela Escola de Investigações Bechara Jalkh, os anúncios que prometiam transformar o leitor em um moderno James Bond através de fantásticas técnicas de luta, visores de infravermelho, maletas-microfone, etc.. eram facilmente encontrados na terceira capa dos quadrinhos de faroeste da editora Vecchi (Ken Parker, Zagor, Tex, etc..).

Literatura esotérica e umbandista

A empatia do brasileiro pelo lado oculto era explorado em anúncios de livros de umbanda, candomblé, bruxaria, espiritismo kardecista, simpatias e venda de patuás mágicos. Tais anúncios eram constantes nas revistas Spektro, Histórias do Além, Pesadelo e Sobrenatural, da editora Vecchi.

Demais publicações

Muitas vezes os quadrinhos anunciavam livros de romance, humor, policiais, etc.. e geralmente incluindo junto um cupon de pedidos. Essa prática era unânime entre todas as editoras.

Cadernetas de Poupança

Em plena época do milagre brasileiro, o “enriquecimento” da nação se fazia sentir nas publicações infanto-juvenis da Bloch Editores, onde diversos personagens da Marvel Comics eram garotos-propaganda da Caderneta de Poupança Grande Rio. Esse tipo de propaganda nunca mais se repetiu, tornando o banco Grande Rio como o único no Brasil a investir na divulgação de seus produtos através das hq’s.

Brinquedos

Ebal, RGE, Cruzeiro, Globo, Abril e Panini foram as editoras que mais anunciaram em suas revistas diversas linhas de brinquedos, com destaque para Atma, Gulliver e Estrela.

Roupas

Fantasias de super-heróis, camisas com estampas de diversos heróis, jeans, malhas, tênis, botas e sandálias estiveram presente em anúncios de até duas páginas, entre os anunciantes de destaque citamos as malhas Hering, jeans Staroup e tênis Íris.

Doces e sobremesas

Quem inovou nesse segmento foi a Danone com uma série anúnicios de Danoninho que saiam sempre na contra-capa das publicações infantis da Abril na década de 80, onde além de divulgar o produto, ensinava que utilizando as duas embalagens vazias de danoninho a criança poderia fazer um bonequinho especial. Os adereços e faces eram estampados no anúcio para a criança recortar e colar nas embalagens.
Não tem como esquecer as propagandas psicodélicas da goiabada Etti.

Bebidas

A febre nos anos 70 foi a Fanta uva, com anúncios em praticamente todas as publicações da Ebal. Curiosamente, apesar da Fanta fazer parte do conglomerado da Coca-Cola, esta nunca se fez anunciar nas hq’s. Porém anunciou bastante na Seleções Readers Digest nas décadas anteriores. O falecido guaraná brahma esteve presente nas publicações infatis da Abril.

Programas de TV

Nos rodapés das revistas da RGE na década de 60/70, vinham os anúncios dos seriados de TV e desenhos animados. Já a Bloch anunciava o programa do Capitão Aza. As quadrinizações de personagens da tv eram freqüentes (Trapalhões, Angélica, Faustão, Xuxa, etc..).

Cursos profissionalizantes

O campeão nesse segmento é o saudoso Instituto Universal Brasileiro que no início colocava em seus anúncios as fotos e depoimentos de ex-alunos satisfeitos, para na década de 80 anunciar sob a forma de uma pequena hq onde um jovem desempregado fazia o curso de desenhista por correspondência e ao se formar, arrumava emprego em uma grande editora, tornando-se famoso, rico e famoso!!
Porém, anos antes a Escola Panamericana de desenho fazia o mesmo uso de linguagem em seus anúncios.
Como um reflexo do período militar aqui no Brasil, as forças armadas procuravam arrebanhar novos recrutas, oferecendo “grandes oportunidades” ao leitor civil.

Saúde e boa forma

Um anúcio em forma de hq mostrava uma caricatura do batman impedido de combater o crime por estar gripado, até tomar Coristina-C e se recuperar, prendendo todos os vilões. Remédios para gripe, Emulsão Scott, Biotônico Fontoura, geléia de mocotó, cintas para emagrecimento, aulas de kung-fu, mini-academias domésticas, etc..
As hq´s vendiam saúde, e ao lado do Instituto Universal, esse tipo de anunciante, foi o mais presente na mídia impressa.

Material escolar

Canetinhas Hidrocor, mochilas, cadernos e lancheiras eram o primeiro elo visual do leitor com a escola, afinal nada mais bacana do que ir para o recreio com a lancheira do Super-Homem ou do Homem-de-Ferro.

Empresas de ônibus

A Viação Cometa quando lançou os famosos Dinossauros Cometa em sua frota, rodando pelas estradas brasileiras com o supra-sumo do conforto para a época, as revistas da Ebal fizeram seu anúncio, seguindo posteriormente para a Abril. Não constam em nossos registros anunciantes similares, a primeira instância apenas a Cometa apostou nas hq´s.

Diversos

Cursos de mágica do Instituto Fu-Manchu, jogos e brincadeiras, Garelli (aquela bicicleta com motor de moto ou moto com pedal de bicicleta), vídeo games, programas de futebol da Bandeirantes, quase todos os segmentos já anunciaram nas páginas e contra-capas das hq´s brasileiras.
Esses anúncios estiveram presente nas editoras brasileiras em uma época em que qualquer um comprava uma revista na banca com o troco do pão – literalmente falando -.
Editoras como EBAL, RGE e Abril tinham um departamento especializado na parte comercial, outras aparentemente se aventuravam na cara e coragem, anunciando em suas revistas os mais bizarros produtos numa época em não existia a distribuição setorizada (salvo raras exceções).
Hoje temos publicações de qualidade gráfica e de acabamento superior a de qualquer época, temos um público fiel que está sempre comprando sua revista e (obviamente) consumindo outros produtos, então onde estão os anunciantes? Será que faltam anunciantes ou será que o que falta é alguem para abrir a porta e chama-los?
O mercado consumidor hoje atravessa uma excelente fase, seria hora dos editores atuais acordarem, pois tempo e papel são dinheiro.

Agradecimento especial ao Don Drácula pelos scans da Gulliver e outros.

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O pai de Charlie Brown também é Charlie, Charles M. Schulz (1922 – 2000). E ele confessava: “Acho que sou cem por cento Charlie Brown. Milhões de pessoas lêem as coisas tolas que eu fiz quando era garoto”.
Sparky (seu apelido em criança) nasceu em Minneapolis, Minnesota, em 1922. Filho de um barbeiro (como Charlie Brown) lia “montes de histórias em quadrinhos, o dia inteiro”. Na escola só se orgulhava mesmo dos seus desenhos, orgulho que não era compartilhado pelo professor de Desenho. Nos esportes também era a encarnação do fracasso e lembra “com dor no coração” o dia em que seu time de beisebol perdeu por 40 a O.

Trapalhão, tímido, bem intencionado e mal sucedido, Charlie Schulz foi Charlie Brown. Seu sonho era ser desenhista. Se possível, de histórias em quadrinhos. Estava fazendo um curso de arte por correspondência quando foi chamado para o serviço militar, pra guerra. Voltou em 1946, sargento.

Aí ele conseguiu emprego numa equipe de desenhistas de quadrinhos e “para pagar as contas” começou a dar aulas numa escola popular de arte. Foi lá que uma de suas alunas, Joyce Halverson, fez com que ele desse a ela um anel de noivado: Um ano depois estavam casados. Um ano depois de casados ele vendeu sua primeira charge para o Saturday Evening Post, e começou também a publicar os seus primeiros quadrinhos no St. Panl Pionner Press (realmente um pioneiro) uma vez por semana. Já eram as aventuras de Charlie Brown e seus amigos.

Só que a estória não se chamava Peanuts (Minduim, isto é, a turma do amendoim): chamava-se Li’l Folks (Amiguinhos). No dia em que pediu aumento Charlie Brown foi demitido. Aliás, Charlie Schulz.

Em 1950 o United Feature Syndicate comprou a tira e mudou o nome, sob o mais absoluto protesto do autor. Mas aí começou o sucesso.

As aventuras e desventuras de Charlie Brown passaram a sair em oito jornais, todos os dias. Schulz ganhou 90 dólares no primeiro mês, 500 no segundo, mil no terceiro e hoje só os quadrinhos rendem mais de 300 mil dólares por ano, a seus descendentes.

E isso é o que menos rende porque os posters, as camisas, os relógios, os bonecos, os travesseiros e almofadas, os baralhos, os calendários, os colares, as pulseiras, os móbiles, os produtos licenciados para usar personagens dos Peanuts rendem mais de três milhões de dólares.

Charlie Brown, Linus, Lucy, Snoopy, Schroeder, são os principais personagens dos Peanuts e de uma das mais bem sucedidas aventuras editoriais do nosso tempo.

O império de Charles M. Schulz inclui 1340 jornais e revistas do mundo inteiro, em 19 línguas. Com um total de 60 milhões de leitores.

A coisa acabou – como era de se esperar – no consumo maciço. Os personagens de Peanuts viraram mercadorias e o produto nacional bruto do mundo de Charlie Brown & Co. chegam aos 150 milhões de dólares anuais, abrangendo desde inúmeros milhares de Snoopys de borracha inflável, pulôveres e bonés de beisebol Charlie Brown, bonecas Lucy. prendedores de gravatas Woodstock. A tal ponto que fãs de Schulz já se reuniram, em algumas grandes cidades, para protestar contra o excesso de comercialização dos personagens.

Peanuts não foi imediatamente um sucesso espantoso. Precisou um pouco de tempo antes de pegar, quase cinco anos. Vendo as primeiras tiras, nota-se a diferença: Charlie Brown, no começo, não era o perdedor de hoje. Tinha uma personalidade muito mais parecida com a de Linus. Desenvolto e com uma certa fanfarronice. Os outros personagens eram, no começo, Patty, Shermy e Snoopy. Patty e Shermy eram “muletas”, pois o único herói era Charlie Brown.

Quando Lucy chegou, no segundo ano, não era importante. Chegou como uma menina esperta, um pouco baseada em nossa primeira filha. Dizia muitas coisas impertinentes e engraçadas. Mas aos poucos Charlie Brown se tomou mais complexado. Snoopy começou a se tornar um cão-não-cão. Lucy a desenvolver sempre mais a sua forte personalidade, o cobertor de Linus começou a se tomar uma obsessão, Snoopy foi para o telhado da sua casinha e chegaram Schroeder e Beethoven.

Na Turma do Amendoim o herói (ou anti-herói) é Charlie Brown. Ele não é, absolutamente, um menino como os outros. Pra começo de conversa ele é sempre Charlie Brown, por extenso, e imagino que seja chamado assim para que não haja a menor possibilidade de confundi-lo com um Charlie qualquer.

A aparência é inconfundível: Charlie Brown é aquele menino de cabeça redonda, o que está sempre com a mesma camisa com a barra em ziguezague. Todos exploram o pobre Charlie Brown e se divertem fazendo-o de bobo, mas Charlie Brown não é um bobalhão. Charlie Brown é um ser humano normal, generoso, amorável, simpático e errado.

Errado? Erradíssimo. Charlie Brown é o que se pode chamar um fracasso completo: jamais conseguiu empinar um papagaio, perde sempre no jogo de damas, nunca comemorou a vitória do seu time de beisebol (do qual ele é o técnico, o capitão e o principal jogador).

Charlie Brown vive querendo agradar e sua preocupação permanente é tomar-se um garoto popular na sua turma. Mas vive deprimido, infeliz, tem pena de si próprio porque sabe que a tarefa é impossível e que ele vai fracassar mais uma vez, como fracassa em tudo.

Ainda por cima, acredita na bondade das pessoas e está sempre sendo surpreendido pela maldade da vida. Mesmo o seu cão não acredita muito na sua capacidade de sobreviver.

Na verdade foi Charlie Brown o primeiro a brincar com a Nona Sinfonia, pois para Schulz era divertida a idéia de um menino tocando todas aquelas notas complicadas. E para prosseguir com esse conceito, veio o piano de brinquedo e Schroeder que era pequeno, cresceu rapidamente.

Lucy é uma menina mandona, para começo de conversa. Muito antes das mulheres estarem interessadas nos movimentos de libertação feminina ela já estava em plena campanha para tomar o lugar de técnico do time de beisebol. E se recusava a vestir calças compridas para não ficar “com a ridícula aparência de um menino”. Egoísta, pretensiosa, fofoqueira, dominadora, vil, traiçoeira, e até tão egocêntrica que não pode entender que alguém não goste dela.

Ela adora atormentar Charlie Brown. A quem persegue com sarcasmos, observações ferinas. Ridicularizando-o sempre que pode. A única pessoa a quem Lucy não agride é o Schroeder.

Schroeder é a paixão da sua vida, enquanto a paixão da vida de Schroeder é a Arte, especialmente a música, particularmente Beethoven. Schroeder já nasceu pianista e a sua capacidade musical está anos e anos à frente do seu desenvolvimento físico. Schroeder só pensa em música e passa os dias executando Beethoven num piano de brinquedo, com um talento e um virtuosismo notáveis.

Schroeder é capaz de esquecer o dia do próprio aniversário, mas não admite que esqueçam o aniversário de Beethoven. Ele gosta de tocar só para quem entende: Linus e Snoopy, mas sua maior fã é mesmo Lucy. Que, para seu desgosto, é incapaz de reconhecer a Sonata em Fá Menor. (Aliás, Schroeder usa o primeiro compasso da Sonata para assobiar pelo Snoopy).

Schroeder, ao contrário, encontra a paz na religião estética: sentado ao seu pianinho de araque, de onde tira melodias e acordes de complexidade transcendental, afundado em sua total admiração por Beethoven, salva-se das neuroses cotidianas, sublimando-as numa alta forma de loucura artística. Nem mesmo a amorosa e constante admiração de Lucy consegue comovê-lo (Lucy não gosta da música, atividade pouco rendosa, cuja razão não compreende, mas admira em Schroeder um vértice inatingível, e prossegue sua obra de sedução, sem nem mesmo arranhar as defesas do artista): Schroeder escolheu a paz dos sentidos no delírio da imaginação.

E Linus? Linus é tão inseguro que vive chupando o dedão. Fetichista: agarra-se ao seu cobertor como um náufrago ao salva-vidas. Um cobertor que acaba imundo, mas que ele não larga, e jamais abandonará. Um dia as meninas resolveram agarrá-lo, tomar o cobertor e lavá-lo. Linus ficou em estado de choque até que devolveram o cobertor. E mesmo depois disto continuou cabisbaixo, macambúzio, na fossa. E quando Lucy disse a ele que aquilo era uma atitude infantil, ele retrucou: “É? Como é que você se sentiria se tivessem feito uma lavagem cerebral no seu melhor amigo?”.
Linus é emotivamente retardado, mas intelectualmente precoce, fiel admirador de sua professora Miss Othmar. Seu principal problema é o principal problema de quase todo o mundo hoje em dia: segurança. E ele tem consciência de que a segurança é cada vez mais difícil. Resultado: as únicas coisas que o defendem de precipitar-se no caos psíquico são o seu dedão e aquele maravilhoso cobertor, que não o impedem de ser um intelectual, o filósofo da turma.

Onerado de todas as neuroses, e a instabilidade emotiva seria a sua condição perpétua, se, com a neurose, a sociedade em que vive não lhe tivesse oferecido também os remédios: Linus carrega aos ombros Freud. Individuou, no seu cobertorzinho da primeira infância o símbolo de uma paz uterina e de uma felicidade puramente oral. De dedo na boca, e cobertor encostado a uma das faces (possivelmente de televisor ligado, diante do qual fica empoleirado como um índio, mas, no extremo, nada, um isolamento de tipo oriental, apegado aos próprios símbolos de proteção), Linus encontra o seu “sentimento de segurança”.

Enquanto Minduim não consegue construir um “papagaio” que não se precipite entre os ramos de uma árvore, Linus revela, de repente, em certos momentos, habilidades de ficção científica e vertiginosas maestrias: constrói jogos de alucinante equilíbrio, atinge no vôo uma moeda de um quarto de dólar com a ponta do cobertor que estala como um chicote.

Escolhido como o símbolo dos analistas americanos, Linus acabou introduzindo um novo gesto os leitores: assim como o polegar para cima é sinal de satisfação e concordância, o polegar na boca significa, dependendo da situação: “você está por fora!” ou “eu estou na minha!!!”.

Também Pig Pen (Chiqueirinho) teria uma inferioridade de que se queixar: é irremediavelmente, assombrosamente porco. Sai de casa lindo e penteado, e depois de um segundo, os cordões do sapato se desamarram, as calças caem-lhe sobre os quadris, os cabelos se enxovalham de caspa, a pele e a roupa ficam cobertas de uma camada, de lodo. . . Consciente desta sua vocação para o abismo, Pig Pen faz da sua situação um elemento de glória: “Sobre mim se adensa a poeira dos séculos inumeráveis…”.

Iniciei um processo irreversível: quem sou eu para alterar o curso da história?” – não é uma personagem de Becket, naturalmente, é Pig Pen falando, o microcosmo de Schulz atinge as extremas ramificações da escolha existencial.

Snoopy leva até à última fronteira metafísica as neuroses decorrentes de uma frustrada adaptação. Snoopy sabe o que é um cão; ontem era um cão; hoje é um cão; amanhã talvez ainda seja um cão; para ele, na dialética otimista da sociedade, que consente saltos de um para outro status, não há nenhuma esperança de promoção.

Mas, de hábito, não se aceita a si mesmo, e procura ser o que não é; personalidade dissociada como nunca se viu igual, gostaria de ser um crocodilo, um canguru, um abutre, um pingüim, uma serpente. Tenta todos os caminhos da mistificação, para depois render-se à realidade, por preguiça, fome, sono, timidez, claustrofobia (quando se embrenha em capim alto).

Snoopy tem suas manias também, como dormir em cima da casa “pra ver quando eles começarem a descer.” Eles? Os discos voadores. Snoopy acredita que haja vida inteligente em outros planetas. Ou, pelo menos, vida semi-inteligente. Por vida inteligente ele entende a sua, é claro!

Bailarino, o melhor batedor do time de beisebol, Snoopy já viu Cidadão Kane 25 vezes e é – digamos assim – um ser realizado. Ou quase, porque toda a vez que está voando para a França no seu Sopwith Camel, é derrubado pelo Barão Vermelho, a quem jurou pegar um dia.
Snoopy tem em seu canil uma mesa de bilhar e um Van Gogh (legítimo), e as mesmas neuroses que qualquer outro ser humano: preocupa-se com o nível do colesterol, tem medo de aranhas, não fuma para não ter câncer, sente claustrofobia e não dispensa um bom banho de sol.

Com cabelos cobrindo desalinhados cobrindo os olhos, uma tradicional camisa listrada e um inconfundível par de sandálias, Patty Pimentinha consegue, às vezes, ser mais desagradável do que Lucy com o seu realismo intransigente. Ela não entende como é que “certas crianças escondem-se num país de faz de conta e fantasia” e faz muita questão de cortar imediatamente qualquer vôo de imaginação. Seja quem for que ameace decolar ela abate imediatamente, inclusive o pobre Snoopy.

Nos esportes, ela consegue ser o que Charlie Brown não é: uma vencedora, mas essa vitória cai por terra quando o assunto é a escola. Incapaz de se manter acordada durante as aulas e dona das respostas certas para as questões erradas, gerando um trauma escolar que perde apenas pelo o do tamanho do seu nariz.

Patty secretamente gosta de Charlie Brown, mas nunca admite isso, nem para si. Pois como uma vencedora pode gostar de um garoto tão fracassado quanto ele?

Marcie é a única menina da turma que não maltrata Charlie Brown. Estudiosa, totalmente avessa a qualquer tipo de esporte, ela representa o oposto de Patty, a qual trata sempre por “sir” (ou “meu”, como na tradução dos desenhos aqui no Brasil). Quando estão juntas, formam com perfeição uma representação do yin-yang, e talvez por isso as duas sejam tão unidas. O que
faz com que Patty seja vítima das bizarras incursões de Marcie no mundo do corte-costura.

Sally é a irmãzinha de Charlie Brown, ela começou nas tirinhas, como um bebê e foi crescendo aos poucos, e como todos os personagens, Sally também teve sua cota de traumas, como o
pânico de ter de entrar para o jardim de infância. Sua mente criativa perde apenas para a do Snoopy, com direito a tacadas filosóficas que beiram o puro non-sense.
Precocemente ela elegeu Linus como seu amado e cavaleiro andante (sem armadura, porém de cobertor), apesar dos veementes protestos de Linus. A melhor amiga de Sally é a escola, digo, o prédio da escola, com o qual ela compartilha a sua visão do mundo e da sociedade; e se alguém ousar chamar a Sally de maluca, corre o risco de levar uma tijolada na cabeça, pois no mundo dos
Peanuts, as escolas são vingativas.

Talvez o personagem mais inseguro que Charlie Brown seja o passarinho Woosdstock. Melhor amigo de Snoopy, ao qual trata como confidente e muitas vezes fazendo-o de figura paterna. Durante anos (no nosso conceito de tempo) Woodstock foi um pássaro pedestre: tinha medo de voar. E desde que aprendeu (perdeu o medo) a voar, jamais foi capaz de voar em linha reta, traçando no ar um zigue-zague como se carregasse algo muito pesado.
Um dos maiores traumas desse simpático pássaro amarelo, é a ausência de sua mãe. Inconformado com a lei da natureza que separa os pais dos filhotes quando estes alcançam certa idade, mergulha em tristeza e depressão no dia das Mães, por sentir-se abandonado e sozinho no mundo.

Mas o número de personagens é bem mais extenso, portanto ficamos apenas com os principais.

No Brasil, as primeiras tiras da Turma do Charlie Brown sairam na revista Pingo de Gente – Ed. O Cruzeiro. Cuja adaptação e projeto gráfico eram feitos pelo cartunista Ziraldo, que nos brindou com pérolas nas traduções: Charlie Brown virou João Barbosa (uma homenagem ao letrista da revista Pererê), Linus virou Lino, Snoopy ganhou a tradução literal de Xerêta, e Schroeder virou Essenfelder. Pingo de Gente teve vida curta.

Poucos anos depois a editora Artenova publicou uma série de 48 livrinhos de bolso da turma do Minduim, dessa vez o editor/tradutor Luiz Lobo teve mais tato na escolha dos nomes, além de escrever excelentes resenhas nos primeiros números. O sucesso dos livrinhos gerou uma revista em formatinho do Snoopy e dois álbuns especiais: “Snoopy, volte para casa!” e “Charlie Brown, você é nosso herói!”.

Em seguida ainda acompanhamos as tiras dos Peanuts nas páginas das revistas Grilo e Patota. Depois vieram as editoras Cedibra, Record e Conrad, com álbuns a cores, livrinhos de bolso e edições especiais em formato “tira”.

A editora L&PM lançou uma série de livrinhos em formato pocket com a turma do Charlie Brown, tal como a Artenova havia feito anteriormente. Em novembro de 2009 a L&PM iniciou a publicação da coleção “Panuts completo” compilando em ordem de publicação todas as tiras, em um excelente trabalho gráfico e de alta qualidade.

As animações da Turma do Charlie Brown foram exibidas com sucesso na tv brasileira nos anos 80, isso após a passagem dos longas no cinema.

Podemos resumir o mundo dos Peanuts como um microcosmo, uma monstruosa redução infantil de todas as neuroses de um moderno cidadão da civilização industrial, nessa historinha cheia de personagens cujas fraquezas, angústias e frustrações fazem uma comédia humana que chega aos limites do desespero, o nosso desespero. De repente, nessa enciclopédia das fraquezas contemporâneas, surgem, como dissemos, clareiras luminosas, variações descompromissadas, alegros e rondós onde tudo se apazigua: em poucas tiradas ágeis e desenvoltas, os monstros voltam a ser crianças, e Schulz toma-se um poeta da infância.

Sabemos que não é verdade, e, contudo, fazemos de conta que acreditamos. Na tira seguinte, Schulz continua a mostrar-nos, no rosto de Minduim, com dois traços rápidos de lápis, a sua versão da condição humana.

Como diz um amigo, essa história é uma verdadeira análise de grupo e engraçado é que, volta e meia, quando me olho no espelho eu vejo Charlie Brown, quando não me vejo Lucy, Linus, Snoopy.

Consulta bibliográfica:
- Puxa vida, Charlie Brown! – Ed. Artenova
- Grilo #25 – Arte & Comunicação Ltda.

Publicado em por Nikki Nixon | Deixar um comentário